Culpar os menores pelo aumento da criminalidade é falta de conhecimento de causa ou oportunismo político

Boa parte da imprensa está botando fogo num debate perigoso para o Brasil e injusto para as nossas crianças e os jovens: o de que é preciso reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, como forma de se combater o elevado índice de criminalidade urbana no País.
O pavio foi aceso pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que desembarcou em Brasília com a receita da pólvora na mão para implodir o “dragão do crime” que assola a capital paulista e o resto do Brasil. Segundo o tucano, este dragão tem menos de 18 anos e precisa de ter a sua idade penal reduzida em pelo menos dois anos para ser banido da sociedade.
Inverteram a ordem dos fatores. Agora são os menores que usam os adultos, ao contrario do que dizem os boletins de ocorrência da polícia, onde o que mais se vê é bandido barbado usando crianças como escudos para ficarem na impunidade ou políticos com cara de vô desviando merenda das escolas para o enriquecimento ilícito em cima das crianças.
Ou seja, para os defensores dessa bandeira do Alckmin (e da imprensa maldosa), os meninos do Brasil é que são os culpados das mazelas e da violência no País. Seriam eles os responsáveis, por exemplo, pelos estouros dos caixas eletrônicos, tráfico de armas, de drogas, seqüestros, rombos nos cofres públicos, fraudes eleitorais e “compra de deputados”.
Não vai demorar muito e os mensaleiros vão falar que foram os nossos filhos é que compraram os deputados e não eles que são grandes demais para cometerem tamanho absurdo.
Ah, me ajude ai governador e seus Datenas da vida. Querer fazer a cabeça da opinião pública com esses absurdos, sem qualquer sustentação jurídica e números, é querer transferir os problemas do Brasil para quem não tem nem direito de defesa.
“Pequenos, violentos e quebrados”
Se reduzirem  a menoridade para 16 anos, como querem muitos, o Brasil fará parte de uma minoria insignificante de países que adotam tal medida sem nenhum sucesso, pelo contrário, são modelos de nações atrasadas (Afeganistão, Coréia do Norte, Nepal e mais uma meia dúzia de países pequenos, violentos e quebrados). Pejorativos que, no Brasil de Alkmin e dos apresentadores sensacionalistas, se aplicam aos jovens.
A questão é que, com a opinião pública formada a ferro e fogo, grande parte dos políticos, mesmo sabendo que o buraco é mais embaixo, acaba concordando com essa mentira para falar a mesma língua do povo.
Em Minas, a A Rádio Itatiaia, campeã de audiência no Estado,  fez uma pesquisa com os parlamentares da bancada mineira para saber quem era contra ou a favor da redução da maior idade no País.
Claro que a maioria foi favorável a essa redução. Metade por incompetência e a outra metade por temer o eleitorado que já está de “cabeça feita” pelos formadores de opinião que pensam com os cotovelos. É fácil colocar a culpa em quem não tem emprego, família, oportunidade, principalmente quando gente de sua idade faz coisa errada e não tem correção da família e do governo que simplesmente o ignoram.
Aliás, é o mesmo discurso dos que são contra os defensores dos Direitos Humanos, por entenderem, equivocadamente, que defender direitos fundamentais é defender bandidos.
A pecha chegou a tal ponto que alguns professores aboliram a expressão Direitos Humanos nas faculdades,  pelos Direitos Fundamentais Positivados, que vem a ser a mesma coisa, porém sem o composto.popularizado  pela  parte ruim da imprensa.
Os números provam que não são as crianças e os adolescentes que mais matam, mais roubam, mais corrompem e mais praticam crimes no País. Pelo contrário. Os dados provam que eles são vítimas de um governo que nunca investiu em educação como deveria, dificulta o primeiro emprego, não se preocupa com as crianças e nem com o seu futuro.
Crianças tratadas como ratos de esgoto
Já os adultos roubam, matam, seqüestram, estupram, traficam drogas, armas e corrompem as autoridades para desviar o dinheiro público e ficam impunes. Mentem para a população, abusam da autoridade e manipulam a opinião pública, como agora com essa discussão fora de foco.
Tenho cinco  filho, mais de 40 anos de jornalismo a céu aberto e, portanto, autoridade para falar sobre esse assunto com conhecimento de causa. Criaram o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas não arrumaram meios para tratamento do menor infrator, com internações dignas. O menor que pratica crimes é jogado na rua, como ratos de esgoto. Proibiram os nossos filhos de trabalhar, mas não arrumaram meios para  proporcionar-lhes estudos e qualificação profissional ao alcance de todos.
Em resumo, deram às crianças e adolescentes do Brasil o direito de apodrecerem na rua, em total estado de abandono e desdém, como se não fossem gente. Todo dia tropeço em crianças drogadas debaixo de viadutos em Belo  Horizonte.
Os marmanjos podem tudo
Já os marmanjos,  pelo contrário, podem tudo. Podem roubar, estuprar e  matar e, quando muito, pagar apenas 1/3 da pena, quando pagam. Podem  traficar drogas, armas e até usar as crianças e adolescentes como escudos. Porque esses parlamentares que são a favor da redução da maior idade no Brasil não votam leis obrigando o governo a investir mais na educação dos jovens? Porque não votam leis obrigando os bandidos a pagarem a pena total pelo crime cometido? Porque não votam leis obrigando os presídios a produzirem para o auto-sustento de seus internos? Porque não votam leis permitindo ao menor trabalhar, conforme o seu desejo, desde que estudem? Porque não votam leis mais duras para os adultos que roubam o dinheiro público?
Nunca vi, em todos esses anos de jornalismo, menor buscando armas e drogas no exterior, ou roubando o dinheiro público. Muito menos mentindo para a opinião pública. Podem pesquisar na Internet que verão que 99,9% dos bandidos brasileiros têm mais de 18 anos. Então, o foco da discussão sobre a criminalidade urbana no Brasil tem que ser outro,  não este.  Pelo visto, o discurso populista de Alckmin sairá pela culatra, a menos que prevaleça a burrice e a insensatez.

José Cleves

Blog do Luis Nassif em 13/05/2013

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