Programa Mais Você faz campanha velada pela redução da maioridade penal

Por Mariana Martins*

No último dia 17 de setembro o Programa Mais Você da Rede Globo, apresentado por Ana Maria Braga, fez coro velado a um debate sério que vem tomando corpo dentro da sociedade brasileira, mas que não vem sendo debatido com a seriedade que merece. O ponto chave da conversa “improvisada” e “desinteressada” da apresentadora com uma psiquiatra, que vive dando aval para diversificados temas no café da manhã da Globo, é a questão da maioridade penal, ou melhor, a campanha pela redução dela que setores mais conservadores da sociedade estão fazendo.

Programa Mais Você Rede Globo

O assunto pouco tem sido tratado com a seriedade e a honestidade (intelectual e jornalística) desejadas. Até agora tenho visto apenas meias verdades, espetacularização e sensacionalismos quando o assunto é a redução da maioridade penal. Esse tipo de opção discursiva só interessa um dos lados do “debate”. Debate, na verdade, negado à sociedade, que ainda não teve oportunidade de ouvir o divergente.

No dia em que o Programa de Ana Maria Braga foi ao ar, fiquei especialmente chocada com o formato adotado para a abordagem ao tema. Com tal opção, o Programa matinal saiu do âmbito do entretenimento e passou a transitar no âmbito do jornalismo e da cidadania (ou na falta desta ou na dos dois).

A apresentadora com o “aval técnico” (muito utilizado para legitimar os discursos jornalísticos tendenciosos) da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa e a mesma, fizeram uma verdadeira e deslavada campanha pela redução da maioridade penal usando o caso de um garoto (menino, criança!) de 9 anos que, nas palavras de Braga, anda “aterrorizando” Goiânia. A análise proferida pela psicóloga era tão grotesca que mesmo muito incomodada com o que ia sendo dito fiz questão de ouvir até o fim e depois fui rever na página do programa na internet. No site do Mais Você está descrita a parte da fala da psiquiatra que infelizmente precisa ser lida:

“Esse menino faz parte das pessoas, menos de 1% da população, que nasce desprovido de sentimento. Ele não tem empatia por ninguém. Conseguimos perceber a índole perversa de uma criança entre cinco e sete anos de idade. Os principais indícios são: maltratar animais e os coleguinhas, não ter respeito pelo outro e se divertir com o sofrimento”, disse Barbosa.

Com um pouco de conhecimento que tenho de qualquer área que lide com gente, com povo, com seres humanos, acredito que sem ser a psiquiatra dessa criança e com base apenas em notícias mediadas por jornalistas e não por especialistas, essa profissional não pode fazer tais afirmações e acusações sobre índole ou sei lá o que dessa criança! Isso, no meu entendimento, chega a ser criminoso, além de antiético e irresponsável.

Mas vale também pontuar que a minha falta de ingenuidade me deixa também atenta aos discursos camuflados. Contudo, não precisa ser expert em análise do discurso e em honestidade profissional para saber que a discussão da maioridade penal é algo que está sendo tema de campanha eleitoral e é parte significativa da plataforma de campanha de alguns políticos. Aliando essa questão com as já conhecidas posições políticas de Ana Maria Braga e da Rede Globo fica fácil saber que a matéria não teve nada de “improviso” e que a “análise” despretensiosa de um caso isolado tem uma função eleitoral clara. Nenhuma ingenuidade existe neste discurso, nenhuma.

Vale a pena analisar tudo que elas falam – desde a simulação de que esse era um assunto que não foi acordado anteriormente para ser tratado naquela entrevista (mas que o nível de produção do vídeo que foi ao ar deixava dúvidas sobre isso) -, passando pelas questões trazidas pela psiquiatra que, por sua vez, chega a sugerir até que a criança pode ser um “possível abusador sexual de outras crianças” até a representação dos símbolos que estavam à “mesa”.

É difícil não se chocar com tudo isso, com o espetáculo que se tornou a vida de uma criança de apenas 9 anos que provavelmente tenha sim muitos problemas, mas que é um ser humano violado na grande maioria dos seus direitos e está sendo crucificado por estas senhoras que, de posse dos seus “crucifixos” (que chega a saltar aos olhos), sentadas à mesa de um belíssimo café da manhã farto e apetitoso, destilam suas “incontestáveis verdades”.

Mariana Martins – jornalista, doutora em comunicação e membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social 

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