Rolezinho de A a Z

Ainda está confuso entender o que é um rolezinho? Não faltam argumentos das mais variadas naturezas para dizer que esses jovens que “invadem” os shopping centers estão errados. Já tem gente se vestindo de Batman para proteger os cidadãos e seus ouvidos contra o rolezinho, o funk, o funk-ostentação, a Copa do Mundo… O Brasil está em transe e os jovens não querem nem saber se os governantes vão criar rolezódromos, centros culturais ou que tais para preservar a segurança e o sono das “pessoas de bem” nos templos máximos do consumo de “classe”. Mas como assim?, se as propagandas nos bombardeiam a todos, diariamente, para consumir, consumir e consumir?

A nova geração – em todas as classes sociais – quer consumir, consumir com ostentação, inclusive a música que a representa atualmente com maior precisão. Acontece que, se os batidões incomodam muita gente, uma ou várias dezenas desses jovens reunidos num shopping incomodam muito mais. O rolezinho, diz a imprensa mundial, é um “flash mob dos pobres”. Não, é bem mais que isso. Origens escravocratas, racismo e apartheid cultural fazem parte dessa incrível salada de frutas, legumes e verduras.

Para tentar ajudar a decifrar o que é que está acontecendo, FAROFAFÁ prepara um pequeno dicionário, que começa em um “Apartheid cultural” e termina em “Zumbi dos Palmares”.

Apartheid cultural – Na África do Sul, segregavam negros em guetos, impediam-nos de frequentar os mesmos lugares dos brancos. Nos Estados Unidos, até não muito tempo atrás, negros e brancos nem podiam dividir os mesmos espaços. No Brasil, onde a herança escravocrata reluz insidiosa em todos os interstícios da sociedade, querem agora criar os rolezódromos, espaços isolados acusticamente para o confinamento de jovens. Ê, vida de gado.

Baile funk – Pancadão, tamborzão, charme, proibidão, chame como quiser… Uma das frases mais ouvidas atualmente é: “Shopping não é lugar de baile funk”. Talvez não seja. Mas se na rua não pode, no posto de gasolina não pode, não pode em lugar algum…, alguém pode explicar onde os jovens de periferia devem se divertir?

Criminalização – Polícia reprime, lojistas entram com liminares, donos de shopping fecham as portas, marcas famosas tentam proibir videoclipes, redes sociais interplanetárias policiam-e-tiram-do-ar, comunidades pacificadas tiram o pancadão da legalidade, prefeitos baixam decretos contra música alta em espaços abertos… Ninguém diz que é contra o funk, ou contra os pretos, ou contra as comunidades. Mas…

Don Juan – Os Rolezinhos já produzem uma nova geração de ídolos pop, dos quais provavelmente você nunca ouviu falar. Mas, sem ter videoclipe na TV nem sequer ser propriamente artistas, eles são capazes de reunir pequenas multidões, recrutadas via Facebook – em torno de algo mais ou menos impalpável que não é um funk, um disco ou um sucesso martelado nas redes de TV aberta.

Emicida – EleMano BrownCrioloKarol Conka e toda a turma do hip-hop são precursores inequívocos dos rolezinhos – além de companheiros, vizinhos ou irmãos das mesmas quebradas.

Facebook – O veículo de comunicação por excelência dos rolezeiros começou como agenda e ponto virtual de encontro – e terminou (terminou?) tentando proibir (ou ajudando a proibir) o murmurinho dos rolezeiros em suas páginas. Santa Ignorância Capitalista, Batman!

Guime – MC Guime, um dos mais talentosos funkeiros brasileiros do gênero ostentação fala de dinheiro, carros, mulheres, #VidaLoka… Mas duvide das “boas intenções” de quem tentar convencer você de que a música que ele e outros funkeiros praticam “é lixo”, “só fala de sexo”, “não tem consciência social” ou quaisquer generalizações ra-cis-tas desse tipo.

Homem-Morcego – Num Rolezinho transgênico de protesto #NãoVaiTerCopa no bairro “chic” do Leblon, no Rio de Janeiro, o impensável aconteceu: o super-herói norte-americano Batman entrou em guerra com o cineasta riquíssimo de esquerda Rodolfo “Dedé Mamata” Brandão e com uma fotógrafa de direita “borned” in Minas Gerais (mas com um “carioca heart”) – tudo filmado por cinegrafistas franceses, numa versão 2014, psicodélica, do Terra em Transe de Glauber Rocha. Acuma?

Iguatemi – Os rolês começaram em shoppings de bairros periféricos e, com o encantamento da classe média/alta mais engajada, já acontecem episódios em caixas-fortes do consumo em bairros como Leblon e Morumbi. No JK Iguatemi, em São Paulo, um protesto de estudantes terminou com o fechamento das portas não só para os manifestantes, como para todos os frequentadores do edifício, em pleno final de semana. Santo Prejuízo, Carlos Jereissati! Shoppings Iguatemi continuam visados, como atesta episódio em Brasília no sábado 25 de janeiro.

Jereissati – Por falar em shopping center, quais seriam os sobrenomes dos donos dos maiores templos religiosos de consumo do Brasil? Que parentesco eles teriam com políticos brasileiros importantes?

Kondzilla – Ele é o diretor de videoclipes e de um emblemático documentário por trás do funk-ostentação, o subgênero de funk brasileiro que, transposto para os shoppings, tomou a forma e o nome de rolezinho.

Luiza Trajano – Ao mesmo tempo lojista ricaça e rolezeira, dona Luiza Inácio, chapinha de Dilma Rousseff e proprietária da rede Magazines Luiza, visitou os jornalistas nova-iorquinos do Manhattan Connection e… deu um passeio. Diogo Mainardi foi visto mais tarde com um copo de uísque meio vazio, dando um rolê de gôndola por Veneza.

MCs – Mestres de cerimônias, os cantores de funk são mais populares entre os jovens que muitos artistas de qualquer outro gênero musical. É difícil entender qual o vínculo tão forte que são capazes de criar com multidões de jovens admiradores? Então basta gritar (de preferência bem alto) que “o jovem está perdido!, o jovem não sabe de nada!, o jovem é ignorante!”. Se o que falam sobre o jovem não é sério (como já cantaram em 2000 Chorão Negra Li), o jovem brasileiro de 2014 está dando vários nós na cabeça de sociológos, antropólogos, filósofos e historiadores. Mas, afinal, por que nós teríamos de ter tanto discurso pronto sobre, para e contra eles?

#NãoVaiTerCopa – #JornadasDeJunho, #JunhoDe2013, #InvernoBrasileiro, #MovimentoPasseLivre, #MídiaNinja, #BlackBlocs, #BeijinhoNoOmbro, #OstentaçãoÉOCaralho, #NãoVaiTerDanoninho – é muito rolezinho e é muita #hashtag, o Twitter vai conseguir dar conta?…

Ostentação – Oakley, Mizuno, Nike, Red Bull, Red Label, Ecko, Absolute, Billabong, Hayabusa, Apple – você consome?, você ostenta?, por que eles não podem?

Plaque de 100 – É o primeiro clipe de sucesso de MC Guime, atualmente com mais de 42 milhões de acessos no YouTube. Onde é que já se viu (aos olhos das elites brancas) um “moleque” de periferia dizer que pode torrar notas de R$ 100 em noitadas, carros etc.? O Rei do Camarote pode, #agregavalor, mas um funkeiro, pobre e tatuado, ah, isso não pode.

Quadradinho de 8 – Música e dança do Bonde das Maravilhas, um grupo de funkeiras do Rio, o “Quadradinho” é extremamente sexualizado e dá brecha para detratores convencidos de que o funk é “vulgar”, “lixo cultural” etc. e tal.

Racismo – Diretor fodão das Organizações Globo, Ali Kamel escreveu um livro chamado Não Somos Racistas, dedicado a provar que não existe racismo no Brasil. Não conseguiu convencer. Aí começaram os rolezinhos nos shoppings, e os alikamelistas saíram da toca: “Não existe racismo no shopping!”, “não é preconceito contra o funk!”, (“não vai ter Copa!”,) “não somos racistas!”… No Twitter, o perfil “Não sou racista, mas” joga querosene na fogueira e mostra que na vida real as coisas não são bem assim.

Sertanejo universitário – Rolezeiros transacionais como o português Cristiano Ronaldo e o brasileiro Neymar (que adora funk!) se encantaram pelo ritmo de “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló, e pronto: o primeiro fenômeno planetário pré-rolê correu o mundo e chegou até a Rússia.

Tiro, Porrada e Bomba – Em “Beijinho no Ombro”, a funkeira carioca Valesca Popozuda dá um rolê por cima dazinimiga Lady GagaBeyoncé Rihanna, ostenta moooooito e fornece munição para quem vê incitação à violência em 100% dos funks brasileiros (#NãoSomosRacistas). E Valesca é toda abraços e beijinhos (no ombro) e carinhos sem ter fim: “Rala, sua mandada!”.

Uneafro – Os adeptos do #NãoSomosRacistas podem jurar por A mais Z que nós brasileiros somos uns santos, mas quando a Uneafro – a União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora – tentou se manifestar no “chic” JK Iguatemi, em São Paulo, o rolê terminou em boletim de ocorrência por… racismo. Santa Branquitude, Robin!

Vitória (ES) – Em 30 de novembro passado, um baile funk numa praia da capital capixaba terminou em repressão policial. Os funkeiros fugiram para um shopping center e terminaram humilhados pela polícia – que, por sua vez, foi aplaudida de pé por frequentadores do shopping. O ato discriminatório provocou uma manifestação em formato de baile funk e influenciada pela comoção mundial com a morte de Nelson Mandela.

Xirley Xarque – Militante índia-negra-branca do tecnobrega e da ascensão social brasileira, nascida no bairro dos Jurunas, em Belém (PA), Gaby Amarantos está há tempos no rolê: “Eu vou samplear, eu vou te roubar”.

YouTube – Os funkeiros não tocavam nas rádios, não apareciam nas páginas de jornal nem nos programas de TV. Eram vistos milhões de vezes em videoclipes no canal da internet. Criaram, de forma independente, a sua própria forma de difusão. E quem está falando deles? Procure pesquisar por MC Dede, Bio G3, Rodolfinho, Lon, Backdi, Nego Blue, Neguinho da Caxeta, Nego do Borel, Pikeno e Menor, Pocahontas, o patrono da ostentação Mr. Catra… – todos ganham dezenas de milhares de reais por show…

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Zumbi dos Palmares – Ele, Mandela, Antônio ConselheiroLuiz GonzagaClementina de Jesus, B.B. KingMartin Luther KingMalcolm X, Toni TornadoMiriam Makeba, Milton SantosGilberto GilLeci BrandãoMartinho da Vila, Zezé MottaJorge Ben JorJames Brown, Carlinhos Brown, Mano Brown, Seu Jorge – brasileiros ou estadunidenses ou terráqueos, blueseiros ou sambistas ou tropicalistas, funkeiros ou não, os rolezeiros são muitos, e atravessam os tempos clamando por liberdade, igualdade, fraternidade.

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Fonte: Farofafá

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