Natal entre muros

Um dia antes ele havia dito que era muito difícil ficar triste, mas, quando viu que entre todas as visitas do último sábado não havia nenhum familiar, abaixou a cabeça e ficou mudo. Este é o terceiro Natal que Mateus*, preso por tráfico de drogas, passa atrás dos muros de uma unidade para reincidentes da Fundação Casa, o centro para menores infratores de São Paulo. Vai ser o terceiro que passa sozinho, mas isso não é  uma novidade. Ele cresceu em uma “turbulência de vida”. Para arrancar dele uma lembrança de Natal bonita, temos de retroceder seis anos.

Fundação Casa - Eliel Nascimento

“Estava com 11 anos e minha avô tinha trazido do Nordeste um monte de frutas e comidas gostosas. O que lembro daquele dia foi o abraço que um tio meu que eu mal conhecia me deu. Eu não esperava, mas todo ano tento recuperar essa imagem que o tempo ofuscou. Há uma frase de um dos protagonistas do filme A vida secreta de Walter Mitty que expressa isso melhor do que eu: ‘Coisas belas não precisam pedir atenção”, relata Mateus em uma sombra da quadra da prisão dele, na Vila Maria, na zona norte da cidade. A mãe de Mateus é “viciada” e, ao que parece,  mora na rua. O pai é alcoólatra. Ele tem mais três irmãos, mas acredita que eles têm problemas demais para, além de tudo, pensar nele. “Por isso não vieram hoje”, justifica.

Nesse inusitado sábado de Natal, enquanto mais uma dezena de presos – aos que também ninguém visitou – almoçava em silencio, sem levantar o olhar do prato, uma mãe abraçava Mateus. É uma mulher forte, de cabelo negro curto, bonita, que conhece o adolescente desde que ele começou a brincar na rua com seu filho João, hoje colega de cela. Ela, de olhos enormes, contornados por círculos escuros, espessos, demora menos de dois minutos em cair em prantos na tentativa de contar sua história. Mateus levanta pela primeira vez a cabeça para limpar o embaçado de seus óculos de armação grossa e escura.

Recém separada do marido, acaba de superar um câncer. Custou-lhe o peito esquerdo, o casamento e múltiplas infecções que a impedem de visitar todo sábado o filho, preso pela terceira vez, também por tráfico. “Eu mandei uma vez um bilhete para ele. Dizia algo assim: ‘Filho, não desisti de você, mas começo a me sentir cansada, e o cansaço é o que faz as pessoas abandonarem’.  Naquela vez, ele sentiu que me ia me perder de verdade, em todos os sentidos e parece que mudou de atitude”, relata a mãe. O pai de João, porém, já desistiu. O garoto chora ao reconhecer. Não consegue perdoá-lo. “Tentamos dar tudo para ele, mas saiu da nossa mão. Ele saía daqui e voltava para o crime. Mas esta vai ser a última, não é, filho?”, questiona a mulher e acaricia o rosto negro do menino.

Chegada a hora do almoço, quando normalmente as visitas devem ir embora, ainda é possível ficar um pouco mais com os meninos, muitos deles protagonistas de um motim em março que permitiu a fuga de 36 internos e acabou com quatro funcionários e dois adolescentes feridos. Algumas mesas foram dispostas nas salas de aula para acolher todo mundo. No menu, salada de massa com o macarrão excessivamente cozido, uma carne de aspecto duvidoso mas de dureza e sabor razoável, e um arroz com feijão com gosto de nada. Só o guaraná e o sorvete de uva sintético dão a sensação de que o dia de hoje é de festa.

Alguns dados da Fundação CASA

  • 10.203 jovens estão internados hoje nos 149 centros da Fundação CASA em São Paulo. 95,36% deles são homens
  • 31,8% dos internos são brancos. O maior porcentual é de pardos (53,8%). Os pretos são 13,9%
  • O crime mais comum dos internos é roubo qualificado [com lesões] (43,44%), seguido de tráfico de drogas (37,57%).
  • Uma minoria foi detida por crimes mais graves. Assim, o latrocínio – roubo seguido de morte – representa 0,79% do total. Os homicídios somam 1,44% de internos e o estupro 0,76%.
  • A reincidência nestes centros é hoje de 13,5%. Em 2006 era de 29%.

Fonte: Fundação CASA

Mateus fala de livros, de histórias de superação com crianças como protagonistas

Nas mesas, vê-se uma mãe que engole em silencio ao olhar para seu único filho com uma mistura de dor e desprezo, uma idosa de cabelos brancos bem penteados e jeito bondoso que acompanha o neto, um pai que sorri ao seu filho igualzinho a ele. Não se fala muito no refeitório improvisado, alguns se entendem com olhares, outros já não tem mais nada a dizer.

Mateus fala de livros. Leu mais de 20 neste ano. Terminou agora de ler um estudo sobre a influencia da mídia na criação de crianças consumistas e acaba de descobrir Stephan Zweig. Ele recomenda suas ultimas referencias: A culpa é das estrelas, de John Green, A menina que roubava livros, de Markus Zusak, e O caçador de pipas, de Khaled Hosseini. Histórias de superação com crianças como protagonistas.

Mateus fala de forma diferente do resto. De todas as expressões para explicar como ele começou a ler tanto, ele escolhe esta: “Não sei, senhora. Eu aprendi a gostar por osmose”.

No relógio são 13 horas e os familiares desaparecem silenciosamente entre abraços e tapinhas nas costas. Luiz, um menino de olhos perdidos pela medicação que dita seu tratamento psiquiátrico, sai do seu esconderijo e volta à esquina do pátio onde passa as horas sem falar com ninguém. Ele nunca conheceu o pai, a mãe morreu e o padrasto o quer o mais longe possível. Ele gosta do Natal “pelas luzes e o panetone”. Em junho ele deve sair, mas os que o conhecem desconfiam que ele não esteja em condições de sobreviver e se comportar lá fora. Os educadores contam que ele já escapou três vezes. “Mas ele sempre acaba voltando sozinho. Ele não tem ninguém”.

“A maioria deles vem de lares destruídos, de bairros onde não há nenhum tipo de estrutura que sirva de alternativa ao crime”, conta um dos coordenadores da Fundação Casa – ao menos no papel, desenhada para reeducar adolescentes infratores. “Eles compram o discurso que tentamos ensinar aqui, compram a ideia de construir uma vida nova ao sair. Procuram emprego, mas não acham. Os jovens tem uma mente muito de curto prazo. O crime te dá emprego na hora”, explica.

Quando você está na rua, sem nada, o tráfico te dá tudo o que você quer

Pedro, preso por roubar 15 mil reais de um senhor na saída de um banco, também não recebeu nenhum dos três visitantes que o centro autorizou para o almoço de Natal. Com um sorriso permanente, tenta explicar como acabou em uma cela pela quarta vez. “Minha mãe pegou 17 anos de prisão por tráfico internacional. Tem seis anos que ela está presa, eu tinha 12 anos. Antes não fui visitá-la porque fui um burro, não dava valor, não entendia, mas comecei a ir desde que estou aqui [a Fundação lhe organizou duas visitas à prisão]”, relata. “Quando você está na rua, sem nada, o tráfico te dá tudo o que você quer”.

A tia dele, o único familiar próximo que lhe resta, desistiu. “Ela me disse que eu nunca mais a viria se eu voltasse a cometer um crime. E ela está cumprindo. Os parentes se cansam”. Como o resto dos internos, Pedro promete que esta será sua última passagem. “Quantas pessoas devem ter matado ou morrido por minha culpa? Quero sair desse mundo”, assegura.

Mateus também gosta de falar de planos e de sua vontade de mudança, de estudar, de trabalhar, de tentar passar o próximo Natal como aquele em que o tio o abraçou. Se a Justiça aprovar, ele deve sair em abril. Mas, de repente, uma fagulha de lucidez muda seu rosto. “Quando eu sair, eu não tenho para onde ir”.

O poeta preso

M. M.

O adolescente é campeão nacional da Olimpíada de poesia. / M. M.

Luan Santana, como prefere lhe chamar o diretor do centro onde ele está preso por tráfico pela terceira vez aos 17 anos, recebeu neste dia de Natal a visita de sua mãe, das duas irmãs e dos seus filhos gêmeos de um ano. Passou a manhã absorto e feliz brincando com os pequenos.

Ele foi a melhor campanha de imagem do lugar este ano, pois venceu a Olimpíada Nacional de Poesia com um poema que escreveu sobre o lugar onde mora.

O plano era passar as festas em casa, pois a Fundação CASA respaldou sua saída, mas a juíza de seu caso considerou que sua última chance de tentar a vida fora ainda não havia chegado. É o terceiro Natal que passa em uma cela. “Eu já estou calejado, não me abalo tanto já”, afirma.

O concurso de poesia, em que concorreram 54.000 candidatos, permitiu a ele viajar a Belo Horizonte, para a semifinal, e a Brasília, para recolher seu prêmio, um laptop e equipamento para montar uma sala de informática na sua escola, no caso sua unidade de reclusão. Era a primeira vez que subia em um avião. “Nunca pensei que ia chegar onde cheguei. Ainda mais sendo um interno”, diz. A organização da Olimpíada fez questão de não revelar ao juri sua condição de preso. Tratou-o como o resto dos participantes, todos bem mais novos do que ele.

Na proclamação do resultado em Brasília, há uma semana, seu nome foi o último a ser revelado. “Quando chamaram o quarto ganhador, fiz o sinal da cruz. Aí disseram que o último envelope era de São Paulo. Meu coração começou a bater forte. A emoção foi tão grande quando ouvi meu nome! Mas dessa vez me segurei e não chorei, como em Belo Horizonte. Quis fazer diferente”, relata.

Luan promete que esta terceira passagem pelo centro será a última, mesmo porque se ele voltar a delinquir seu destino agora será uma prisão comum. “Desta vez foi diferente. Neste ano tive algumas conquistas, como a Olimpíada e o Encceja [Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos], mas perdi muita coisa também, como o nascimento dos meus filhos”, afirma. “Amadureci muito com tudo que vivi aqui. A prisão serve para construir e destruir. Tem pessoas que saem daqui mais revoltadas ainda do que entraram, mas tem adolescentes como eu que viraram homens”.

Perguntado sobre o que ele acha de reduzir a maioridade penal, responde rápido. “Você vê adolescentes que não tem estrutura psicológica para estar aqui, imagina em uma prisão! Com 16 anos não se tem maturidade. Mesmo cometendo um crime, os internos são muito inocentes em muitas coisas. Eu aprendi a ser responsável, comecei a assistir às aulas. Em uma prisão normal eu nunca teria conseguido isso.”

*Os nomes dos protagonistas desta reportagem foram trocados por fictícios para proteger sua intimidade.

Fonte: El País

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