Elisa Lucinda: “Não nos indignamos quando quem morre é pobre, preto e anônimo”

Por Maria Frô, Revista Fórum

Elisa Lucinda: “Não nos indignamos quando quem morre é pobre, preto e anônimo”

Já amanheci e caí em prantos, de cara. Coisa que raramente me acontece. Mas foi a reportagem. O garoto brasileiro morador do morro do Dendê relatando o fato que fez com que ele perdesse o irmão: “Nós vimos os helicóptero da policia atirando contra o morro, lá de cima, parecia guerra de verdade. Meu irmão então correu para dentro da padaria, e a polícia foi lá dentro e matou ele. Por quê?”

Não aguentei, explodi em lágrimas. Que merda.

Todo dia morre gente na periferia ou na favela vítima de violência policial! Como assim? Sobrevoar uma comunidade atirando contra ela? De quem foi essa ordem e de que ordem é essa ordem? E que formação policial é essa que não vê que os meninos mortos diariamente nas comunidades são tão importantes quanto o médico assassinado na Lagoa?

Parece que as coisas só ficam sérias quando batem no nosso quintal, parece que quando começa a feder nos condomínios é que nos damos conta da barbaridade que estamos vivendo. A injustiça social é o sistema mais insano que pode existir e certamente põe uns contra os outros. Não nos indignamos quando quem morre é pobre, preto e anônimo.

O recente episódio da cidade de Baltimore, nos Estados Unidos, mostra uma indignação violenta e eu não gosto nada de indignação violenta. Mas vejo que nós estamos ainda mais atrasados nesse assunto, porque nem nos indignamos.

Quando olhei aquele menino falando na televisão, o menino brasileiro que o Brasil desperdiça, despreza, não conta, doeu em mim como um parente, como filhos da mesma pátria que somos. Não é porque eu sou boazinha não. Nem quero dar uma de boa samaritana, mas é porque é assim mesmo. Me enternece ver uma vida jovem, com potência para ser um dia orgulho do país.

Para pensar uma nova nação temos que cuidar do povo o mais igualitariamente possível. “O mapa da desigualdade” mostra um Brasil absurdamente esquizofrênico em se tratando de distribuição de serviços. Há cidades de médio porte que têm a mesma quantidade de habitantes; só que numa tem 6 teatros e na outra nenhum; e assim segue com hospitais, universidades, escolas. A desigualdade gera as disparidades, e os disparates.

É claro que prender menor cada vez menor não é a solução. Não é aconselhável botar meninos que estão em formação junto a bandidos formados.

Peço àqueles que querem a diminuição da maioridade como solução, que lutem cobrando do Estado e de outras instituições sociais que cuidem dos meninos antes. Eles são os da evasão escolar, são os filhos maltratados, abusados, que fugiram de casa, são os perdidos. Se forem presos, quando saírem de lá vão aumentar o exército do crime. Até por egoísmo devíamos pensar nisso.

Quem vai nos proteger quando eles saírem de lá mais criminosos do que entraram? Por isso, vejo na qualidade da instituição sócio educativa, que cuida dos menores infratores, uma excelente oportunidade para reconduzi-los ou conduzi-los ao caminho da cidadania. Ou fazemos isso ou estaremos alimentando com excelente nutrição o ovo da serpente.

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