Mulheres Negras em luta lançam Manifesto

Por Douglas Belchior, Blog Negro Belchior

O dia 18 de Novembro de 2015 será histórico. Milhares de mulheres negras devem ocupar a esplanada dos ministérios, em Brasília, a fim de manifestar a exigência, junto ao Estado brasileiro, de equidade de gênero, racial e social. Esta ação, batizada de Marcha das Mulheres Negras 2015, será um marco na denúncia e na busca pela superação do racismo e do patriarcado, elementos fundantes e estruturantes da sociedade brasileira. Neste último sábado, a Uneafro-Brasil promoveu um encontro de formação e arrecadação de recursos para contribuir com a mobilização. Na ocasião fora divulgado o Manifesto das Mulheres da Uneafro.
Marcha Mulheres Negras 2015 - Manifesto - Blog Negro Belchior
O encontro aconteceu no sábado, dia 8 de Agosto,
na Sub-Sede da Apeoesp de Itaquera, Zona Leste de São Paulo.

Do site da Uneafro-Brasil com fotos de João Novaes

 Veja as fotos da atividade e leia a declaração abaixo:

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Lideranças dos diversos núcleos de base da Uneafro, além de militantes de outros movimentos também participaram.

Em Manifesto, mulheres da Uneafro fortalecem a Marcha das Mulheres Negras 2015

Nós, mulheres, mães, jovens, estudantes e dirigentes da Uneafro-Brasil, há anos nos dedicamos ao trabalho comunitário e permanente através dos Núcleos de Base espalhados pelas periferias de SP, por meio da arte, da cultura e principalmente a partir dos Cursinhos Comunitários e da prática da educação popular, convidamos a todas as mulheres a se organizar e juntas construir um grande instrumento de luta do povo negro e da classe trabalhadora brasileira.

Conheça a Uneafro e ajude a construir a Marcha das Mulheres Negras 2015

Mulheres negras e pobres são diretamente responsáveis pela trajetória dos jovens estudantes de nossos cursinhos. São delas os maiores incentivos e apoios para que seus filhos estudem.

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Advogada Popular, militante feminista e membro do Conselho Geral da Uneafro, Rosângela Martins.

Para nós da Uneafro, os elementos de raça e gênero e cultura, ao lado do elemento econômico, são centrais para o entendimento da realidade brasileira e para o fomento das lutas políticas e sociais em nosso país.

A efervescência da luta feminista que vivemos hoje é fruto direto das lutas históricas pela emancipação das mulheres negras. Muitas vieram antes de nós: Dandara, Acotirene, Aqualtune, Anastácia, Tereza de Benguela, Luiza Mahin, Maria Carolina de Jesus, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Leci Brandão, Luiza Bairros, Jurema Werneck. À elas nossa reverência! Às novas gerações cabem a radicalização do enfrentamento ao machismo e ao patriarcado, traços fundantes do nosso país. E assim tem sido, afinal, não se tem lembrança da realização de tantas ações, atividades, seminários, rodas de conversa e formação de coletivos voltados ao empoderamento das mulheres negras.

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Luciana Araújo, jornalista, feminista e militante do Núcleo Impulsor da Marcha das Mulheres Negras 2015

É uma questão de pele, de energia movente, quando várias mulheres negras relatam sua vivência, se identificam umas com as outras, riem, choram, se inspiram, se enaltecem. E é sim preciso falar sobre isso, já que, em vários momentos e espaços, fomos silenciadas. Agora que este silêncio foi quebrado e as angústias foram divididas, percebemos o quanto as trajetórias são idênticas. Daí nosso poder cada vez maior de mobilização e luta!

É preciso olhar para dentro de nossos movimentos, organizações, cursinhos, saraus, partidos políticos, sindicatos e discutir, incidir, reeducar e provocar mudanças reais.

Sobretudo, é preciso demarcar a posição histórica das demandas das mulheres trabalhadoras, reivindicar o campo popular da esquerda brasileira como lugar de nossa organização política, a valorização das organizações e instituições políticas da classe trabalhadora e a centralidade da luta antirracista e antimachista, sem as quais os sonhos por justiça jamais avançarão.

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Drika e Luana Hansen manda o recado no momento de descontração e consciência.

O contexto político retrógrado e o avanço de setores conservadores atingem brutalmente a vida das mulheres negras. Não é preciso ir longe para exemplificar, uma vez que o genocídio da juventude negra e periférica se dá de forma continuada. O cerceamento da garantia de direitos fundamentais às crianças e adolescentes, com a ameaça constante de uma redução da maioridade penal, produzem efeitos violentos sobre os ombros das mulheres negras.

Por outro lado, a resistência, o posicionamento político, a força que vem da auto-organização das mulheres negras é motivo de reafirmação da luta, e precisa ser festejado. É motivo de alegria! Traz renovação, dá poder, contagia! Temos que envolver mais, mobilizar as comunidades periféricas onde vivemos e construir um grande movimento para mudar o país!

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Outros momentos formação devem ser promovidos até novembro de2015

E é com força inspiradora de um dos lemas da Marcha das Mulheres Negras: “uma sobe e puxa a outra”, que chamamos todas e todos para o debate, para a roda de conversa, para o samba, para a ciranda, para o coco, para a capoeira, para o jongo, para assim, alcançar as mulheres negras organizar nosso exército em luta! Assim já é nossa prática!

Mas por que marchamos?

A nossa experiência nos cursinhos populares, nas escolas públicas, em associações comunitárias, na escuta e na conversa com mulheres da periferia, de forma direta e permanente nos faz dizer:

Marchamos pelos relatos que ouvimos, para levar a todos os espaços a fala da mulher encarcerada ou mãe de negros encarcerados, violentada pela revista íntima nas cadeias, ou para elevar a voz da dona de casa com filhos sem vaga em creche, da mãe solteira, da mulher negra faxineira sem carteira assinada, que vê os filhos e filhas lutando para que ela deixe um dia de limpar banheiros nas casas de pessoas.

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Cidinha Silva, professora da rede municipal de SP, militante feminista e membro do Núcleo Uneafro Cohab II – Itaquera.

Marchamos para que se ouça o que diz a mulher negra no seu mais íntimo momento de solidão. Marchamos porque dentre as mulheres assassinadas, por feminicídio, a taxa de 61% é de mulheres negras. Marchamos para que se repita à exaustão que nosso salário é menor, que o assédio moral e sexual persiste contra nosso corpo, no trabalho, no ônibus, na rua.

Marchamos pelas jovens que abandonam o cursinho comunitário com vergonha de estarem grávidas, por medo de apanhar do namorado, por não ter quem cuide de suas crianças para que elas estudem! Marchamos para nossa geração sobreviver e nossas filhas um dia encontrarem o bem viver!

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Por fim, marchamos para que esta linda mobilização continue, incansavelmente, pelo fim do racismo, do machismo, da lesbo-bi-transfobia, das violências vindas do patriarcado que sofremos e contras as quais resistimos, por inspiração de Dandara e todas de que somos herdeiras!

Pela superação do patriarcado e do racismo, seguimos!

Assinam militantes, coordenadoras de núcleos e membros do Conselho Geral da Uneafro:

Ana Paula – Núcleo Clementina de Jesus – Cotia/SP

Andressa Melo – Núcleo Mandela – Bragança Paulista/SP

Camila Cunha – Núcleo Capão Redondo – ZS-SP

Carolina Fonseca – Núcleo São Mateus em Movimento – ZL-SP

Estela Rocha – Núcleo Uneafro Jundiapeba – Mogi das Cruzes/SP

Fernanda Braga – Núcleo Mandela – Bragança Paulista/SP

Franciana Lacerda dos Santos – Núcleo Diadema/SP

Larissa Oliveira – Núcleo Luz – Centro-SP

Letícia Santos– Núcleo Mandela – Bragança Paulista/SP

Luciana Machado – Núcleo Antônio Candeia Filho – Centro-SP

Maira Cunha – Núcleo Capão Redondo – ZS-SP

Mayra Prachedes – Núcleo Antônio Candeia Filho – Centro-SP

Rebeca Martins – Núcleo XI de Agosto/Esquerda Preta – Poá/SP

Rosângela Martins – Núcleo Tereza de Bengela –ZL-SP

Talita Gomes – Núcleos Guerreiros de Atibaia/SP

Thais Renata de Lima – Núcleo Rosa Parks – ZL-SP

Turiny Sá – Núcleo Educação Liberta – Itaquaquecetuba/SP

Vanessa Gravino – Núcleo Clementina de Jesus – Cotia/SP

Vanessa Nascimento – Núcleo Uneafro Jundiapeba – Mogi das Cruzes/SP

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capoeira

Movidas pela Capoeira, de Osasco, marcaram presença na atividade.

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