A democracia, a surdez e por que (infelizmente) nossos motivos ainda são os mesmos

Por Emicida, especial para Ponte Jornalismo
Muitas coisas acontecem em dez anos, inclusive nada. Num Brasil de desesperanças que covardemente amplia os poderes de seus bandidos favoritos, permitindo por exemplo que a lógica de extermínio das forças de segurança paulista se estenda para o território nacional, precisamos saber se estamos fazendo as perguntas corretas. Na última década, colocamos mais pretos e favelados em formaturas, em penitenciárias ou em caixões?  Creio que este “Freakonomics” macabro confirmaria a velha frase de Getúlio Vargas: “Quase sempre é fácil encontrar a verdade, difícil é depois de encontrá-la não tentar fugir dela”.

Lotamos as ruas para gritar por democracia, mas também tenho me dado a liberdade de perguntar: quão longe um fruto pode cair do pé?

Digo isso porque o sistema político do qual (não) desfrutamos é filho de uma democracia que nasceu na cidade grega de Atenas. Onde os poderes eram controlados por eupátridas, uma elite composta de pessoas do sexo masculino, de pai e mãe atenienses, donos de terras, alfabetizados, com mais de 20 anos e para quem a escravidão era inerente a alguns setores da sociedade. É bom salientar que eu estou falando de quinhentos e alguma coisa antes de Cristo.

O conceito de povo e governo era (ou é?) completamente diferente para quem faz as leis e para quem é alvo delas.

No “Making a Murderer” brasileiro, Rafael Braga luta para provar que pinho sol e água sanitária não são materiais explosivos. Contra ele o Estado e as convicções de uma sociedade que estranha quando o bandido é branco. A seu favor, Amarildo, Cláudia, 19 pessoas de Osasco, 12 do Cabula e mais cinco jovens de Costa Barros de quem ninguém sabe o nome e que têm no mínimo 111 motivos para fazer o Brasil parar tudo o que está fazendo, olhar no espelho e concluir que é uma máquina de moer pobre. Só que esses falam de tão longe que apenas os familiares ainda conseguem ouvi-los. Estão mortos.

E quem tem ideia do quão trabalhoso é fazer com que os mortos falem? Conheço quem consiga, porém muito mais difícil do que isso é fazer com que a sociedade escute. Disparos ensurdecem. Quanto mais perto,  menos se escuta depois deles. Permanece um apito no ouvido parecido com aquele que no metrô avisa que as portas estão se fechando. Tudo parece distante depois disso. E a gente vive num tiroteio.

Dizem que você só escuta o tiro depois que ele te atingiu.

É foda. E depois disso, os que ficam  nunca sabem dizer se ficaram mais fortes ou se também morreram.

Eu olho de um outro Brasil, um que que começa a ver que o bastão do poder nunca trocou de mãos, que é um acordo de cavalheiros em que, quando questionado sobre democratização da mídia, o ex-presidente Fernando Henrique, como bom eupátrida, diz que não fala de amigos. De um Brasil que sabe que direita e esquerda não são iguais, mas também tem dificuldade em apontar as diferenças. Na maioria das vezes, o que sabemos é que para eles (bem mais para esquerda, quase nunca para direita) as balas são de borracha e para nós as balas são de verdade.

Meu parceiro Nego diz que o cheiro das ruas brasileiras ainda é de Brasil Colônia. Atravessando essa década de existência (resistência) e luta das Mães de Maio, minha convicção ainda é a daquela fala de Théoden em “Senhor dos Anéis”, nenhum pai/mãe deveria enterrar seu filho.

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