Mais um caso de racismo na infância

“Eu estava na escola, daí três meninos começaram a me zuar, aí eu fingia que não ligava né. Aí teve uma hora que eu tava na sala (de aula) e eles começaram a falar do meu cabelo. Aí depois ele pegou o boné e tacou na minha cabeça, eu peguei e falei que ia levar o boné até a diretoria e falar que eles estavam me xingando, ai um veio pegar o boné na agressividade comigo, daí eu fui lá e bati nele.

Ai a professora, sem nem saber o que tinha acontecido, pegou e levou a gente até a diretoria e falou que a gente estava se batendo na sala, daí foi quando eu tomei a suspensão. O diretor quando ele deu a suspensão, ele nem sabia que tinha acontecido e eu perdi matéria por conta da suspensão, sem ele saber o que aconteceu.

Antes as pessoas me zuavam, eu ia na diretoria e falava, eles falavam que iam conversar com a pessoa e depois eles chamavam, a pessoa me xingava também… Depois só tinha uma conversinha e falavam que tá bom.”

O relato é sobre racismo na escola. A estória, contada N., uma menina negra de 11 anos que não alisa seu cabelo, explicita como o racismo é estrutural e estruturante. Tudo aconteceu na E.E. Professor José do Amaral Mello, escola de Vila Galvão, distrito de Guarulhos, em São Paulo.

Ou seja, estamos falando de uma instituição que deveria estar mais que preparada para acolher a vítima, sobretudo em função da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares da educação. A perseguição contra uma aluna negra, uma criança, deveria motivar a instituição a educar os demais alunos, quem sabe até a si mesma. A ação deveria ser imediata, inequívoca, mostrando que racismo não é brincadeira. Racismo é crime.

Mas o que vemos é um cenário completamente diferente.

Ao invés de acolhimento, foram impostas à vítima uma série de agressões. Primeiro, posto que o cumprimento da lei 10.639 inexiste ou é insatisfatório, temos um ambiente onde o racismo acontece com toda a permissividade entre docentes e discentes. Em segundo lugar, o silenciamento cruel e desumano através de uma suspensão, promovido por aqueles que estavam em condições de fazer a diferença, mas escolheram punir a vítima e premiar o racismo com a impunidade. Em terceiro lugar, notem que a suspensão fez com que N. perdesse aulas e matérias, sendo mais uma vez prejudicada.

O nome disso é educação?

E uma escola, com poder de fazer a diferença e proteger uma criança negra mas não o faz, qual o nome devemos dar a isso? Há mais um aspecto a ser considerado – N., por ter sido vitimada pelo racismo inúmeras vezes, tem sido perseguida pelo estereótipo da “preta, favelada, barraqueira que se mete em confusão”, pelo simples (e louvável) fato de não baixar a cabeça para o racismo, por denunciar todas as repetidas agressões que são cometidas contra ela.

E é justamente por conta desse estereótipo, que todas nós mulheres negras bem conhecemos e que nos são determinados mesmo desde a infância por uma sociedade racista e sexista, que o diretor não quis saber que a queixa era gravíssima, que demandava atenção imediata e igualmente grave. Esse talvez seja um dos aspectos mais cruéis desse relato, porque houve inúmeras tentativas de denuncia dos maus tratos sofridos. Mas a resposta veio em forma de violência e não de educação, como se espera que sejam resolvidos os casos de racismo na escola.

Evidentemente todos os detalhes de mais um episódio de racismo nos causam revolta e indignação, mas também esperança pela profundidade e determinação demonstradas por N., uma menina de 11 anos, uma criança negra, que está dando uma aula de como é importante que a gente não se cale. Não importa com que intensidade o racismo tente nos derrubar. A gente vai reagir.

Obrigada N..

Mexeu com nossas mais novas, mexeu com todas.”

Por Charô Nunes {Publicado originalmente em Blogueiras Negras}

racismo é crime

 

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