‘Aquele sangue era meu’, diz mãe que viu filho morto em favela do Rio

Por Alfredo Mergulhão, Folha de S.Paulo

Tinha acabado de descer o morro do Querosene quando ouvi dois tiros. Continuei andando até o mercado para comprar três batatas, uma cenoura e pão, para fazer uma canja para o meu caçula, que estava doente.

Na volta, enquanto subia a escadaria, o pessoal da comunidade começou a dizer que meu filho tinha sido baleado [a polícia ainda não esclareceu sobre de onde partiu a bala; mais cedo, houve confronto entre PMs e traficantes em uma favela vizinha]. Ainda no caminho, soube que era o Carlos Eduardo.

Subi correndo, esbarrando nas pessoas, desesperada para ver se o Dudu ainda estava vivo. Mas, quando cheguei, vi o corpo dele no chão, na porta de casa, tampado por um lençol. Retirei o pano para ver seu rosto. Só que não aguentei olhar. Ele estava morto, muito machucado. Gritei muito, xinguei, fiquei desesperada. Ninguém subiu o morro para socorrer meu filho. Ele nem chegou a ser levado para o hospital.

Doeu demais ver o sangue do meu filho derramado. Aquele sangue era meu.

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A catadora Sheila da Silva fala sobre a morte do filho Carlos Eduardo, baleado em favela do Rio. Foto: Pablo Jacob/ Agência O Globo

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Resolução determina fim dos autos de resistência em registros policiais

Por Felipe Pontes, da Agência Brasil

Uma resolução conjunta do Conselho Superior de Polícia, órgão da Polícia Federal, e do Conselho Nacional dos Chefes da Polícia Civil publicada hoje (4) no Diário Oficial da União aboliu o uso dos termos “auto de resistência” e “resistência seguida de morte” nos boletins de ocorrência e inquéritos policiais em todo o território nacional. A medida, aprovada em 13 de outubro de 2015, mas com vigência somente a partir da publicação no DOU, promove a uniformização dos procedimentos internos das polícias judiciárias federal e civis dos estados nos casos de lesão corporal ou morte decorrentes de resistência a ações policiais.

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Há um ano: Para Human Rights aprovação de projeto de lei que trata fim com auto de resistência, pelo Congresso, diminuiria mortes em ações policiais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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“Maioridade não deveria ser a discussão”, afirma jovem do Jabaquara

Por Vagner Vital, Blog Mural/Folha de S.Paulo

Às 6h, o relógio dispara na casa de João Inácio,16. Aos poucos, o escuro na residência vai dando espaço às luzes acesas. O silêncio noturno se mistura ao barulho que vem da rua. Como uma orquestra, o bairro acorda. João é o primeiro a levantar. Como toda manhã, prepara a mochila, pega os livros e vai para a escola que fica a 600 metros de casa, no Jabaquara, zona sul da capital paulista. Assim como em muitas periferias, a iluminação pública é deficiente, o que faz o adolescente redobrar a atenção no caminho.

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Morador do Jabaquara, estudante cita episódios de preconceito racial (Foto: Vagner Vital/Blog Mural)

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‘Se caísse um avião cheio de jovens a cada dois dias, as pessoas se sensibilizariam?’

Por Brasil Post
Ninguém bate o Brasil quando o assunto envolve o número absoluto de homicídios ao ano. São mais de 56 mil assassinatos, dos quais 30 mil envolvendo jovens. O índice envolvendo a juventude fica ainda pior quando analisado sob o viés étnico: 77% dos jovens vítimas de homicídios são negros, dos quais mais de 90% do sexo masculino. Se só os dados não forem suficientes, aqui vai uma chocante – e bastante realista – metáfora:

“É como se a cada dois dias caísse um avião cheio de jovens. No entanto, como você não vê esse avião caindo, essa morte pulverizada, e os homicídios acontecem no Brasil inteiro. Então isso não parece ser uma tragédia aos olhos do público em geral. Você não vê no noticiário, não vê a sensibilização das pessoas. Se fosse um avião cheio de jovens, talvez você ficasse chocado porque aquilo estaria condensado em um único momento”.

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Para Pezão, se é jovem, preto e pobre, é ladrão

Por Isabela Vieira Do Brasil 247
Via Geledés

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, disse hoje (24) que a ação da Polícia Militar de retirar adolescentes de ônibus vindos de bairros da periferia em direção às praias da zona sul, neste final de semana, foi tomada para impedir crimes na orla, como arrastões. “Quantos arrastões nós tivemos, praticados por alguns desses menores?”, perguntou o governador. “Não dá para imaginar que o adolescente, em um ônibus, indo para praia, seja um adolescente que vai cometer atos infracionais. Não tem como saber, a não ser por adivinhação”, disse a defensora pública Eufrásia Souza das Virgens

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Quando a periferia será o lugar certo, na hora certa?

Por Eliane Brum*, El País

A maior chacina de 2015, em São Paulo, mostra que as palavras começam a matar antes da morte e seguem assassinando os vivos depois

As fotos do 13 de agosto mostram mulheres lavando o sangue dos mortos com rodo, como nos filmes B de terror. Se o rio vermelho escorre pelos degraus, as palavras ecoam para além da extensa fila de cadáveres. Elas matam lentamente, como balas em câmera lenta, que perfuram os corpos, se espatifam por dentro e vão corroendo os órgãos. Dia após dia, dia após dia, dia após dia. Mata-se e morre-se também na linguagem. As palavras silenciam os mortos para além da morte. E calam os vivos, mesmo quando eles pensam gritar.

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“A Polícia Militar precisa enfrentar o desafio de modernizar e humanizar a corporação”

Depoimento emocionante do Coronel Íbis Silva Pereira, chefe de gabinete do comando geral da PM do Rio de Janeiro: “Por que a gente não disputa os nossos meninos e as nossas meninas que a gente está perdendo para o tráfico? Não é reduzindo a maioridade penal não porque isso é abrir mão deles.” Íbis falou ainda sobre as péssimas condições de trabalho dos policiais militares e criticou a política de guerra às drogas, durante a audiência pública realizada pela Comissão de Direitos Humanos da Alerj, no dia 19 de maio de 2015.

”As forças públicas de segurança foram envolvidas nessa guerra política e aconteceu uma questão entre nós que ainda precisa ser estudada. No momento em que a gente sai da ditadura, a gente entra numa outra guerra que a gente incorporou, essa maldita guerra às drogas! E é justamente quando acontece essa coisa terrível, a gente sai de uma guerra, o Brasil reencontra a democracia no final da década de 79 e a gente entra numa outra guerra. O inimigo mudou: O inimigo não é mais o garoto lá, o garoto subversivo, o inimigo agora é o traficante de drogas e há mais de 30 anos que a gente está fazendo guerra. Em 1988 veio uma Constituição que dá uma nova cara para a nossa sociedade. Na década de 90 foi a pior época da Policia Militar na terra de guerra. Nós chegamos a ter nesse Estado 56 mortes por 100 mil habitantes durante a década de 90. Foi quando se instituiu entre nós a famigerada gratificação faroeste. Isso já foi política de Segurança Pública de Estado, isso já foi política! Essa loucura já foi política de segurança aqui. Isso tem uma consequência: Quem planta vento, colhe tempestade. O que nós estamos colhendo hoje é a tempestade dessas insanidades que foram chamadas de políticas de seguranças entre nós. É preciso consertar isso, é preciso modernizar a policia, fazer o que deveríamos ter feito lá na década de 90, quando todas as instituições estavam progredindo, se adaptando a nova realidade constitucional, estavam entregando fuzis para garotos de 25 anos, empurrando esses meninos para matar e para morrer dentro da favela.O resultado é esse aí: Uma instituição que parou no tempo.”

Assista ao vídeo!

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