Não tenho motivos para comemorar os 450 anos do Rio

Só vejo tortura, encarceramento e morte do povo negro carioca

por Walmyr Júnior, do Jornal do Brasil

Bem, sei que a beleza natural da minha cidade, o Rio de Janeiro, encanta, fascina e seduz turistas do mundo inteiro, porém, eu não vejo aqui motivos para comemorar tal aniversário de 450 anos. Quando olho pra favela vejo jovens negros morrendo, olho para os presídios e vejo a população negra encarcerada, olho para a história da minha cidade e vejo que meus ancestrais, negros e escravos, foram mortos e torturados durante o período colonial, sem falar do período da ditadura que até hoje não se sabe quantos negros foram sequestrados e tiverem seus corpos deflagrados e desaparecidos. Então para mim não é tão fácil olhar para a realidade vivida na minha ‘cidade maravilhosa’ e ter motivos para comemorar seu aniversário.

Muito se ouve falar do sistema carcerário no país, no entanto, pouco se escuta dos relatos da vivência de um jovem negro em situação de conflito com a lei que está em um sistema prisional ou socioeducativo. Temos nesse projeto de ‘reinserção social’ as maiores violações de direitos que um ser humano pode sofrer. A insalubridade e a superlotação são as mais graves denúncias de quem vive o cotidiano do sistema prisional brasileiro.

A população de presos provisórios no Brasil é muito superior a qualquer país com condições próximas às nossas. Na minha cidade, que faz 450 anos, o escândalo é maior, pois dois em cada três presos estão ilegais. As zonas de reinserção social estão inchadas e superlotadas tirando a dignidade do meu povo, e o meu querido prefeito comemora de mãos dadas com meu governador e minha presidenta o aniversário da cidade.

De acordo com o relatório do Instituto Avante Brasil, dentre os 548.003 presos em 2012 nos presídios nacionais, 195.036 eram de presos provisórios, ou seja, aqueles que aguardam julgamento. Isso equivale a 37% do total de presos do país. Além de retirar a força o povo negro da rua, a justiça ainda dificulta sua volta à sociedade. A população carcerária no Brasil é composta de 65% de negros em seu contingente.

Para aprofundar meu descontentamento quero fazer memória de um do triste retrato pesquisado no Mapa da Violência 2014. Enquanto a taxa de homicídios entre a população não jovem, ou seja, um adulto com a faixa etária acima de 29 anos, é de 14,9 a cada 100 mil habitantes, entre os jovens de 15 a 29 anos ela chega a 42,9 a cada 100 mil habitantes. Temos nesses a descrição que o crime de homicídios foi responsável por 28,5% das mortes de jovens no país, porém foi causa apenas de 2% dos óbitos da população não jovem.

Quando vemos esses dados não podemos nos escandalizar apenas com a morte das juventudes. Dentre essas mortes relatadas no mesmo documento, temos o número de 20.852 jovens negros mortos pelo crime de homicídio, um número três vezes maior que o número de homicídios de jovens brancos. Preocupo-me mais ainda que esse dado é uma progressiva queda no número de homicídios de jovens brancos, acompanhada do aumento das mortes de jovens negros. Talvez a falta de acesso a esses dados levaram meu  querido prefeito a comemorar de mãos dadas com meu governador e minha presidenta o aniversário da cidade.

Não vou me alongar nesse texto, pois sei que tais dados não chegam a toda população que gentilmente comemorou o aniversário da Cidade Maravilhosa. Deixo como provocação esse incipiente retrato de descontentamento para que aqueles que olham o Rio de Janeiro possam vir de fato conhecer a realidade de quem leva essa cidade nas costas.

Estou falando do trabalhador carioca, que tem que enfrentar o trânsito infernal do Rio que chega a 2 ou 3 horas de engarrafamento por dia. Falo da criança que tem que deixar de ir à escola por causa da incursão da polícia militar na favela com o propósito de dar fim à guerra as drogas. Falo das famílias que está vendo seus filhos serem exterminados pela violência gerada pelo mito da‘guerra as drogas’. Falo do cidadão que tem o seu direito de ir e vir violado por que tem um tanque de guerra na porta da sua casa.

O Rio de Janeiro que completa 450 anos declarou guerra à classe trabalhadora que vive nas suas favelas. Essa guerra é velada com a propaganda de ‘pacificação’ das comunidades. Só esqueceram de combinar com meu prefeito, meu governador e minha presidenta que durante a comemoração do aniversário da minha cidade a favela estava de luto.

 

Walmyr Júnior é professor. Representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude – CONJUVE. Integra Pastoral da Juventude e a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

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