‘Se caísse um avião cheio de jovens a cada dois dias, as pessoas se sensibilizariam?’

Por Brasil Post
Ninguém bate o Brasil quando o assunto envolve o número absoluto de homicídios ao ano. São mais de 56 mil assassinatos, dos quais 30 mil envolvendo jovens. O índice envolvendo a juventude fica ainda pior quando analisado sob o viés étnico: 77% dos jovens vítimas de homicídios são negros, dos quais mais de 90% do sexo masculino. Se só os dados não forem suficientes, aqui vai uma chocante – e bastante realista – metáfora:

“É como se a cada dois dias caísse um avião cheio de jovens. No entanto, como você não vê esse avião caindo, essa morte pulverizada, e os homicídios acontecem no Brasil inteiro. Então isso não parece ser uma tragédia aos olhos do público em geral. Você não vê no noticiário, não vê a sensibilização das pessoas. Se fosse um avião cheio de jovens, talvez você ficasse chocado porque aquilo estaria condensado em um único momento”.

 

A análise do atual cenário da vitimização da juventude brasileira é da assessora de direitos humanos da Anistia Internacional, Renata Neder, e foi exposta ao Brasil Post durante o lançamento da mostra Setembro Verde: Jovem Negro Vivo, aberta na última terça-feira (22) no espaço Matilha Cultural, em São Paulo. O evento segue na capital paulista até outubro e tem como carro-chefe da campanha lançada pela Anistia, no ano passado.

 

 

“O que a campanhaJovem Negro Vivo está propondo é tirar esse tema (a morte dos jovens) da invisibilidade. É mostrar que isso está acontecendo, não pode fechar os olhos, entender as causas, precisamos estudar isso e o Estado precisa dar uma resposta”, disse Renata Neder.

Junto da discussão acerca dos homicídios de jovens no Brasil a Anistia também promove nesta mostra a divulgação do levantamento a respeito da letalidade policial no Rio de Janeiro, estudo este intitulado Você matou meu filho: Homicídios cometidos pela Polícia Militar na cidade do Rio de Janeiro, cujo lançamento aconteceu no dia 3 de agosto deste ano.

“Não adianta falar do problema da segurança pública, de uma política de redução de homicídios, sem falar das outras violações que esse mesmo jovem negro sofre todos os dias. O homicídio é apenas a ponta desse iceberg”, completou a assessora da Anistia. A reportagem do Brasil Post apurou que um estudo sobre a letalidade policial em SP deverá ser lançado até maio de 2016, quando os ataques do PCC e os homicídios de vários civis completam 10 anos.

Anistia Internacional - Campanha Jovem Negro Vivo

Com exposição visual, ciclo de debates e programação de cinema, a mostra da Anistia na capital paulista terá eventos diversos até o dia 22 de outubro. A entrada é gratuita e a programação complete você pode conferir aqui.

Desmistificar o ‘olhar negativo’ aos direitos humanos

A discussão quanto à violência contra os jovens negros no Brasil – a qual algumas organizações atribuem o rótulo de ‘genocídio’, com base na definição oficial da ONU – também permite que se debata melhor o papel do defensor de direitos humanos no Brasil. Nesta semana, a Anistia soltou uma nota de repúdio por conta de um capítulo da novela A regra do jogo, da Rede Globo, no qual um personagem corrupto se passava por ‘agente da Anistia’ (assista à cena aqui).

NOTA PÚBLICA: Menção à Anistia Internacional na novela 'A regra do jogo'

NOTA PÚBLICA: Menção à Anistia Internacional na novela ‘A regra do jogo’ >>> http://on.fb.me/1iWvF3A

Para Renata Neder, é de conhecimento público que “defender direitos humanos no Brasil é um negócio de risco”, com levantamentos feitos pela Anistia que, inclusive, mostram o alto grau de ameaças e até assassinatos em vários países das Américas. Entretanto, situações como a mostrada pela novela ajudam apenas a estigmatizar a impressão de setores quanto a um trabalho fundamental, em um País no qual “são visíveis as violações diárias de direitos humanos para onde que se olhe”.

“É fundamental que se mude a percepção sobre defensores de direitos humanos no Brasil, que a sociedade apoie o trabalho desses defensores, e que existam programas de segurança adequadas. Hoje os programas de proteção existentes hoje estão sucateados”, avaliou a assessora da Anistia Internacional, que ainda questionou a postura dos governantes do Rio acerca dos arrastões registrados em praias da zona sul nas últimas semanas.

Na visão de Renata Neder, a tentativa de “polarizar a discussão” que está sendo feita hoje, quando gestores pedem ‘carta branca’ para deter jovens antes mesmo que crimes sejam cometidos – o que foi proibido pela Justiça fluminense –, está se tentando negociar com direitos humanos fundamentais, como o direito de ir e vir e o direito ao lazer. E isso não é aceitável.

“Uma coisa importante é que nenhuma política pública pode resultar em violação de direitos humanos. Eles não são negociáveis e o Estado tem a responsabilidade de garantir e promover direitos, além de respeitá-los. Isso vale para políticas de segurança pública”, afirmou.

Há algum final para o trabalho dos defensores de direitos humanos? Só quando o direitos de todas as pessoas, sem exceção, for pleno e garantido.

“O governo é que nem feijão, só vai na pressão. Não importa que governo, de qual partido, seja municipal, estadual ou federal. A gente só vai avançar na evolução e garantia de direitos se houver mobilização social. Se nós, dentro dos nossos movimentos ou organizações, das instituições onde a gente trabalha, só se a gente fizer pressão para que tenhamos uma sociedade calcada em direitos, sem aceitar violações. Uma sociedade plena baseada em direitos humanos. De todos”, finalizou.

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